E Aceitação

A dor se agita em meu coração como uma serpente faminta, envolve qualquer sentimento positivo e o esconde em algum recanto maldito, sem luz.
Estamos na aula de Português, estudando a terceira viagem de nossa professora à Europa. Eu percebo que ela não tem o menor grau de empatia, pois todas estamos com os olhares e pensamentos em outro lugar. Enquanto a chuva nas janelas ressoa pela sala em tom hipnótico, eu rabisco espirais numa folha amarela do caderno. A professora está sentada na mesa, com as pernas cruzadas e seu nariz arrebitado dá vontade de atirar uma cadeira na testa dela. Ela é um barulho muito irritante. É o último período antes das férias de Inverno.

Agora estamos nos corredores: alunas andam efervescentemente em direção à saída, prometendo-se fazer tudo diferente. O som dos sapatos e das risadas se afasta cada vez mais em direção ao mundo real. A alegria de desejar ser livre está afastada desta escola por duas semanas e um dia.

Observo pela janela a mata ao lado. Há somente o balanço soturno das árvores que ignoram qualquer desavença e crescem, crescem, crescem. Vou até o laboratório de Biologia e encontro a professora Luciana deitada na mesa, lendo um livro. Ela tem cabelo curto e preto, contrastando com a pele alva e os olhos castanho-claros. Veste uma calça vermelha e uma camisa preta. Luciana é dona de gestos muito delicados e precisos, seu corpo esguio favorece isso.
“Oi…”, digo, batendo à porta aberta enquanto entro.
Ela me olha e sorri, de cabeça pra baixo, sinalizando que sou bem vinda.
Sento numa cadeira em frente a ela e seu olhar sábio me encara. Ela põe o livro de lado, me olha por mais alguns instantes e encara então o teto. O cinza do céu chuvoso respinga para dentro da escola, tornando tudo muito delicado e aparentemente mais importante.

Ela parece estar em perfeita harmonia com a Terra, o que me intriga.
“Professora, tá tudo bem?”
“Sim”, ela estica um meio sorriso que indica que ela diz isso como uma prática pra afastar as coisas ruins da vida, sabem como é?, “E contigo?”
“Ah… Tirando o ensino médio, tá tudo bem”
Ela ri e concorda comigo. Então fica muito séria, relembrando alguma dor antiga.
“O que tu ainda tá fazendo aqui?”, ela fala para si, mas tomo a liberdade de responder.
“Eu tô esperando alguém”
“Teu namorado?”
“Não”
“Tua mãe?”
“Não”
“Eu sempre te vejo sozinha”
“Essas pessoas daqui não me fazem bem. Todo mundo fica muito maluco depois de passar tempo demais aqui”
Ela não gostou do que eu disse, pois estudou aqui e depois voltou como professora. Me encara com certa tristeza e uma nuvem dentro dela começa a despejar suas melancolias no coração antigo de Luciana. Ela senta, olha pela janela, me olha, desce da mesa e, com seu livro em mãos, atravessa a porta nos fundos da sala e arruma umas coisas.
Fico sentada pensando em como remediar a situação.
“Vem cá, Bárbara”
Vagarosamente entro na sala dela, convicta de que escutarei coisas desagradáveis. Seu olhar mareado pousa sobre mim com dureza. Algo em mim dói. Ela sorri uma alegria profunda e essa combinação fundamentalmente antagônica entre seu olhar e seu sorriso se equipara à beleza de uma floresta milenar.
Lá dentro de Luciana, voamos seguindo a revoada de lembranças alegres – profundamente enraizadas em sua essência – que sobrevoa os dias em que, ainda criança, descobria os encantos por trás da beleza do mundo. Olhe ali, minha amiga!, eis a jovem Luciana de trinta e três anos atrás admirando o primeiro arco-íris que encontrou! Percebe que a alegria dela engole a ponte para o Céu?
Aqui dentro de Luciana, caminhamos com as onças em direção às cavernas, fugindo da chuva que se aproxima. Deitamos e observamos a mata respirando lentamente: poucos pássaros voam baixo, os insetos falam alto, a guerra não existe.
Na sala de Luciana, ela me mostra uma foto de quando se graduava no Ensino Médio, pronta para encarar as coisas da vida.
Está quase completamente igual.
Seu cabelo era longo e seu olhar, alegre.
“Nessa época eu achava que tudo seria bem simples, bem como dizem que é. Sair daqui e estudar mais, depois estudar mais um pouco e conseguir um emprego maravilhoso ao mesmo tempo que faço minha família feliz e constituo minha própria, tudo isso com um sorriso no rosto e com a mente calma”
Ela me olha e sorri, algumas lágrimas vertem da fonte de suas mágoas e ela diz, muito pacificamente:
“Vai ter dias na tua vida que tudo vai doer, que todas as cores ferem e os desastres embelezam a paisagem nefasta. Mesmo assim tu vai ter que continuar caminhando, mentindo que tá tudo bem, mentindo que sabe o que faz, mentindo que o plano da tua vida tá dando certo. Tu vai ter que mentir pra ti mesma. Tu vai ter que vestir máscaras, Bárbara”
Tudo que ela diz faz sentido, quando penso no jeito que as pessoas adultas têm. Aquela serpente dentro de mim parece contente em saber de tudo isso.
Ela me dá a foto e diz que agora o passado dela é meu e que eu tenho que fazer dar certo, pra que nós duas possamos viver melhor. Eu digo que isso não faz muito sentido e ela me pergunta o que eu sei sobre a vida real.
Ela tem razão, de novo. Ela me diz que eu não sou muito diferente das outras gurias da minha idade, só pareço. Que eu não sou muito melhor nem muito pior e que a maneira como sinto e vejo as coisas é essencialmente igual, só pelas mãos do Tempo é que as coisas mudarão de verdade dentro de mim.
A serpente sussurra: “Bem vinda“.
Me largo numa cadeira e, encarando bem a Luciana sonhadora, desato a chorar. A tempestade dentro de mim vinha trovejando há alguns dias e é natural que as tristezas viessem a se liberar pela janela da alma. Agora eu as solto de volta ao mundo.
A dor de ver que a cada minuto tem um sofrendo de luto, tem um matando por fome e outro destruindo por nada.
No final, restará apenas o luto, a fome e o nada.

“Mas como que a gente aguenta todo esse peso do mundo?”, digo, soluçando.
Ela me abraça firmemente e pousa sua mão de dedos curtos e finos sobre minha nuca e com gentis carícias responde minha pergunta.

E agora estou no portão de entrada do colégio. A Luciana teve que ir embora depois de me acalmar porque a filha dela tá hospitalizada. Não perguntei o que ela tem… Essa chuva continua forte e os ventos também, acabo ficando bem molhada mesmo com o guarda-chuva. Protejo a foto no bolso do meu casaco.
Finalmente se aproxima o carro de Andressa, quando entro, percebo que ela também não está passando muito bem. Em seu rosto redondo há uma pequena cicatriz sob o olho direito, algum corte pequeno mas profundo de origem misteriosa, que ela se recusa a explicar. Andressa é dona de cabelos ruivos e uma expressão bem jovem, quase infantil, mas nesse momento a tristeza a domina. Os últimos dias têm sido de intensa melancolia, pra todo mundo.
“Que tu tem?”
“Nada”
Solto meu cabelo e jogo a presilha no lixo.
“Desculpa a demora”, ela diz sem piscar, sem alterar a voz, sem pensar.
“Andressa, acorda”, ela me olha.
“Desculpa”, ela sorri com a boca, mas seus olhos ficam lá no mundo das decepções. Eu consigo imaginar por que ela está assim.
Quando Andressa nasceu, seus pais se separaram. Muitas noites ela ficava sem leite porque a mãe dela largava ela com o pai e sumia por tempos longos. Houve dias em que o pai, ainda jovem recém saído da faculdade, conseguia uma ama de leite. Às vezes ambos passavam fome, às vezes ele não lembrava de comprar fraldas e algumas vezes ela passava dias inteiros sozinha.
Aos três anos já conhecia um amplo mundo de dores.
Aos cinco, pensou em suicídio. Ainda ia de um lado para outro, conforme seus pais a atiravam entre si. Dormiu sozinha em suas casas frias e mofadas diversas vezes, quando ambos achavam que ela estava com o outro.
Começou a trabalhar aos treze anos, vendendo pipoca e água com um senhor muito idoso, que a ensinou algumas coisas sobre amor. Foi então que ela começou a sentir o que é o afeto.
Orlando Godofredo é seu único Vô, que vendeu pipoca e água por algumas décadas para sobreviver.
Ele a abraçava, dizia coisas que crianças devem escutar e a escutava quando tinha problemas no colégio.
Andressa conhece o mundo do sofrimento e saiu de lá coroada. Agora está aqui ao meu lado, encarando o infinito cinza nesse carro ligado, pensando em alguma sensação que eu nunca cheguei perto de ter. A serpente que me corrói tem medo do que se esconde dentro de Andressa.
“Eu não achei que ia chover”, diz ela, quando finalmente aterrissa e o sinal esverdeia-se.
“O tempo anda muito diferente”
“É…”
“Em que tu tá pensando?”
“Um lugar pra gente ir”
“Vem pra minha casa, a minha mãe tá viajando”, faz tempo que ninguém aparece lá em casa. Nem lembro o que é hospitalidade.
“Sério?”
“Sério, ela foi ver o meu irmão”
“Ele tá bem?”
“… Não muito”
“Que merda”
“Pois é… Ele tem que tomar uns seis remédios diferentes por dia, em doses bem grandes. E o pior é que daqui a três meses vão mudar de novo, e três meses depois disso vão adicionar mais um”
“Bah… Que merda…”
“Sim, a medicina é muito mais uma brincadeira do que uma ciência”
Ela ri.
“Bem vinda ao pesadelo da realidade!”, pontua Andressa.

Concluindo este assunto: meu irmão mora numa cidade pequena, onde o ar é menos poluído.

Entramos em casa.
Percebo que estou de férias e não sei bem o que farei com esse tempo todo. Nesse semestre que passou aconteceram tantas coisas e tive que estudar tanto pra passar que não sei mais o que é ter tempo pra mim. Andressa tira os sapatos verdes e se deita no sofá, encarando o teto. Lhe dou um copo com água e um sorriso, ela agradece.
“O que tu quer fazer da tua vida?”, ela pergunta.
Sirvo um outro copo para mim e sento numa cadeira de balanço antiga que foi da minha vó. Meu gato lentamente entra na sala, se alonga, me cheira e então deita na barriga de Andressa. Ela sorri por longo tempo e depois me olha, esperando que eu responda.
“Eu quero primeiro me formar e depois eu penso direito nisso. Agora tem tanta coisa pra me preocupar… É estranho. Parece que eles querem te preparar pra uma vida sem tempo pra ser tu mesmo”
“É bem isso mesmo. A vida adulta normalmente se assemelha a um vórtice que te leva pra uma outra dimensão. A gente vive atribulada. Sempre atrasada. Esquecendo compromissos…”, ela acaricia o gato.
“E por que a gente aceita isso?”
Andressa afofa o gato e a minha pergunta se dissolve no ar.
Bebo uns goles de água. O relógio marca quinze horas e trinta e um minutos.
“Eu sinto muita vontade de mudar as coisas”, digo eu, ao que Andressa sorri.
“E o que te impede além de ti mesma?”

Aqui entra Lucas, com aquela bocarra bem aberta, finalizando um prazeroso bocejo.
“Boa tarde”, diz ele.
“Oi, Lucas”, Andressa responde, mas eu continuo absorta na busca de uma resposta para ela e só aceno com a cabeça.
Ele passa por mim e entra na cozinha.

Andressa dormiu junto do gato por algumas boas horas enquanto eu li algumas coisas que rabisquei no caderno ao longo do semestre que findou. Há muitas passagens sobre me sentir perdida, coisa que não mudou, e algumas sobre solidão, que acabaram com a vinda de Andressa e de Lucas; vejo também algumas páginas em que tentei descrever o mundo em sua mais pura essência, mas não sei mais se isso existe e todos meus rascunhos são diferentes entre si. Não lembro mais qual o raciocínio que me levou a botar tudo isso do lápis no papel.
Pouco antes das dezenove horas, Lucas me chama para jantar.
À mesa está uma jarra de suco verde e uma panela com massa, cujo molho é o bagaço dos vegetais usados no suco. Numa forma redonda está uma grande torta de frango coberta de queijo e com um bom punhado de orégano. Eu chamo Andressa para comer e o fazemos em silêncio. Ainda chove e todas estamos meio chateadas pelas coisas da vida.
Eu sinto na minha vida uma ausência de grandes desafios…

Depois da janta saímos para a vertiginosa noite de sexta feira numa capital mais ou menos grande. Ainda chove.
Estamos no bar mais calmo do bairro, onde a maioria das pessoas não tem a nossa idade. Lucas, com seus 27, Andressa com 25 e eu com 17.

Bebemos algumas cervejas e comemos batata frita. Sabe aquelas noites que tu procura de qualquer jeito algo muito bom pra se alegrar? Essa é uma delas, e o pior: não se encontram essas coisas. Tem noites cujo único objetivo é contemplar nosso próprio vazio, sem o medo de pular pra dentro dele.
As luzes das lâmpadas do bar tremelicam e se apagam. Um homem grita e um coro o acompanha, fingindo que algo muito sério aconteceu. Decidimos pagar a conta a partir.

Passeando de carro, vemos que quase toda a cidade está apagada e, com essa chuva, as pessoas estão bem alteradas. O trânsito está mais calmo, pois parece que toda a coletividade percebeu o perigo iminente. Ligamos a luz interna do carro porque Andressa estava muito nervosa e Lucas não conseguia acalmá-la.

Eu abro o porta luva e encontro um celular com a tela rachada.
“O que é isso aí?”, pergunta Lucas, sem desviar os olhos da estrada.
“Isso o quê?”, diz Andressa, do banco de trás.
“É um celular…”
“De quem?”
“Sei lá… De quem é, Andressa?”
“Ué… Nem sei… Não me lembro de ver ele aí”
“Tu não deu carona pra alguém esses dias?”
“Eu dou carona pra todo mundo”
Enquanto eles discutem sobre algo ligado a caronas e festas, eu vasculho o celular: felizmente, não tem código de bloqueio.
Procuro alguma foto na galeria que indique de quem possa ser, mas nada.
Procuro algum contato frequente, mas não tem nenhum número salvo.
Alguns SMS aleatórios, mas nada que dê um rumo claro.
Desorientada, procuro nos arquivos e encontro algo que me chama atenção, em forma de poema:

cada vez que me perco,
abro outros caminhos.
longe do teu cerco
estão meus anjinhos

sob este céu imundo
que abriga todo mundo,
um só destino
dá o sol a pino

perdida na minha treva
como a semente sem relva

uma andorinha sem verão
a fonte da perdição

Não sei se entendi, mas gostei um pouco da ideia de destino e de reencontro.
Chamo atenção delas e leio em voz alta.
Lucas adorou e Andressa não entendeu nada.

Decidimos encontrar algum sarau acontecendo na cidade e começamos pelo Ocidente.
Eu nem saio do carro, não só por causa da chuva, mas porque a maioria das pessoas no bar é triste. Eu vejo pela janela muitas promessas de amor e cantorias desesperadas, porque as pessoas não se sabem e não se veem. Confundindo seu reflexo com seu Eu, apenas sofrem e se torturam.

Eu sei porque já o fiz exatamente assim.

Eu choro porque tudo está se perdendo e penso que minha mãe também está chorando.
Elas voltam pro carro, Andressa carregando sua aura de nicotina e Lucas seu sorriso de campeão invicto, e diz
“Tá certo, vamo pro Menino Deus”
“Sério?”
“Eu encontrei um amigo meu metido a poeta que falou que lá sempre tem uma galera escritora reunida”
“Hmmm…”
“Vamo lá, Bárbara! Deixa de ser medrosa!”
Só de ouvir isso, já fico com mais medo de lugares estranhos. Gente estranha. Novos códigos sociais.

Chegamos, ainda envoltas pelo breu e pelas gotas de chuva, a uma casa de dois andares e com uma cerca viva pra nos receber. Quando entramos, me arrependo de ter encontrado aquele celular. Vejo que pra essas pessoas isso aqui é quase como um culto espiritual… Que tédio desse tipo de pensamento…

São dezenas de pessoas sentadas, ouvindo, fumando, respirando, chorando, pensando, compondo, rimando e uma fica no centro, declamando o que escreveu.
Ficamos por ali algum tempo, Andressa diz que vai deitar no carro e Lucas some em busca de algo que não escutei o quê.
Sou arrastada pra uma armadilha e ainda tenho que escutar sozinha… Irônico.
Uma moça de semblante sereno se levanta e vai até o centro. Ela respira fundo. Ela olha pra dentro de si.
Ela veste um vestido branco com flores azuis e um tênis verde bem surrado pelo tempo.
Ela tem cabelos cacheados na altura do ombro e a pele morena escura.

Ela fala
eu nasci pra te ter comigo
eu morri pra viver sozinho
um horrível temor antigo
me prende neste caminho
podre e pestilento, onde
cada passo é mais pesado
sob o imposto do conde,
um velho homem armado
cujos sonhos são menos que nada
cujos amores são vãs promessas
de gente mal-amada
morrendo aqui às pressas
eu só te amo por resistência
e só resisto por impotência

Lágrimas brotam pelos meus olhos com tamanha intensidade que mal me aguento em pé, meu coração sugando toda força pra expressar o que minha melancólica essência precisa.

Me sento no chão, ao lado de um homem magro e barbudo que soluça, com o rosto entre os joelhos.
Choramos juntas até que Lucas volta e me ponho de pé.
“Eu encontrei a dona do celular”

Quando acaba o Ritual Poético (era esse o nome do evento).
Algumas pessoas vão embora rapidamente e umas sete ou oito continuam conversando. Uma dela é a moça morena.
Me aproximo dela, quando ela está sozinha, e pergunto
“Oi… Tu tem um minuto?”
“Tenho vários”
Nos sentamos no pátio, sob um toldo, observamos a chuva abraçar as flores do jardim.
“Eu tava muito nervosa quando fui falar”
“Sério?”
“Não deu pra perceber?”
“Tu parecia uma profissional”
Ela ri e me olha.
“Qual o teu nome?”
“Bárbara”
“Bárbara, eu sou a Maria”
“Amei o que tu falou”
“Grata”
“Eu acho que isso aqui é teu”
Alcanço o celular pra ela, que sorri alegremente.
“Ah, grata! Onde tu achou?”
“Tava no carro de uma amiga minha”
“Legal…”
Acho interessante que ela não se importa muito com como foi parar lá, nem nada assim…
“Vamos trocar então. Agora eu vou te dar qualquer coisa que tu esteja precisando”
“…”, meio que não sei o que dizer, nem o que pensar.
“Tu não sabe do que tu tá precisando?”
“Acho que não…”, fico com tamanha vergonha que mal consigo falar essas palavras.
“Isso é normal. Ainda mais no Ensino Médio… Mas tu só precisa de uns amigos e de um pouco de sexo e poesia. É bem simples”
Olho pra ela, mais uma vez chorando.
“Como tu faz tudo parecer tão bonito e tão simples?”
“Eu não faço, Bárbara. Tudo já está perfeitamente belo e simplesmente perfeito”

Com isso, observamos a beleza da chuva cair sobre a perfeição das flores até a meia-noite.

três gotas de sangue

Aqui estamos com nossa sombra. Meu casaco preto me esquenta e observa o sangue que escorre pelos olhos de Muriel, a que não respira mais.
A luz celeste da noite transforma esse líquido vital, de aparência macabra, em algo de beleza poética. Muriel, que não sorri mais, está aos nossos pés, fria, sozinha e eternamente angustiada.

Numa esquina paro pra observar uma cordilheira de nuvens muito claras. Sobre as palmeiras da avenida parecem formar um caminho para o Paraíso e eu aqui, humana, atrasada e confusa, sem meios de me elevar a todo esse esplendor. O anil celeste me tranquiliza e nos ventos parece que ele se fragmenta, espalhando alguns sorrisos por essas pessoas que me ignoram e algumas alegrias intensas em suas risadas. Sigo caminhando.

“Que vestido lindo!”, diz Tadeu quando entro no museu. Ele está se levantando do banco de entrada.
“Nossa, eu nem te vi”
“É porque às vezes eu fico invisível”, sobre o Tadeu, só o que se precisa saber é que ele tem 21 anos, trabalha numa barraca de cachorro quente, é negro, tem cabelo curto, altura mediana e está na minha frente.
“Desculpa o atraso”
“Não tem problema. Aconteceu alguma coisa?”
“Sim, a Raquel me ligou na hora que eu tava saindo”
“Putz… como é que ela tá?”
“Bem mal”
“Mas tu conseguiu tranquilizar ela?”
“Ah, mais ou menos, muito mais depende dela. Ela tem que digerir tudo isso, ainda é muito recente, né”
“Acho que a gente nunca tá pronta pra Morte”
“…”

O casal de amigos caminha pelo Museu, olhando uma exposição de fotografias aéreas de algumas capitais do Brasil. Nelas, é destacada a imensidão do Mar perante as cidades litorâneas, com seus pequenos prédios-pombal, suas pequenas formigas espremidas em ônibus velhos. Grandes ondas adormecidas no intenso azul parecem conspirar. Então admiram algumas pinturas abstratas, que parecem o pesadelo de insetos. Grandes formas circulares engolem monstros-gosma com dentes afiados, pássaros sem penas se transformam em borbulhantes desejos ácidos, um sonho visto num copo de vinho é engolido por um titã sem mãe.

O casal de amigos senta em um banco na praça após cansar de abstrações e do segurança que os seguia racistamente. Tadeu acende um cigarro.
“Isso mata”
“Eu sei”
“Sério, eu não tô a fim de fumar”
Ele apaga o cigarro e o guarda para depois, então vê alguém lá longe e acena. A pessoa responde e corre na direção dele, saltando sobre um banco, um casal de homens deitados pegando Sol, um piquenique de jovens secundaristas, outro banco. É Muriel.

Ela tem cabelo cacheado e pintado de roxo claro, olhos quase verdes quase pretos e um rosto redondo, com uma pinta na bochecha direita. Ela veste um macacão amarelo e sandálias gastas. Ela sorri quase sempre.
“E aí, negão, como tá essa vida?”
“Tá boa, tá boa. Muriel essa é a Ana e vice-versa”
Elas se cumprimentam amigavelmente.
“Que lindo teu vestido!”, as palavras dela dançam pelo ar.
“Valeu”, diz Ana.
“E aí, guria, qual é a história hoje?”
“Hoje? Noite na Zona Sul; estrelas, doce, muita gente amada e muito amor, amado”
“Hmmm, tu pilha?”, Tadeu pergunta para Ana.
“Eu só preciso pegar meu casaco em casa”
“Boa ideia!”, diz Muriel, “Acho que também vou em casa me agasalhar melhor. A minha carona sai às sete e pouco, quase oito, da minha casa, vocês chegam lá?”
“Sim, pode ser”
Se separam. Ana e Tadeu seguem para a parada de ônibus.
“Ela é sempre assim?”
“Assim como?”
“… Estranha, sei lá. Essa alegria radiante parece meio falsa”
“Tipo uma lâmpada barata?”
“É…”, Ana ri.
“Sim, mas tudo tem um motivo”, Tadeu pontua com um peso que quase desequilibra Ana. Ela então relembra que acontece muito mais do que se sabe e que as dores são invisíveis.

 Ana está entrando em seu quarto.
Tadeu está no banheiro, lendo uma revista.
O irmão de Ana está deitado na cama com lençóis cinzas.
“Aonde tu vai?”, pergunta o insone Guilherme, perdido entre mundos de sim e de não.
“Acho que é uma festa na Zona Sul, mas não sei bem onde”
“Hmmm… E tu tá legal?”
“Acho que sim, sei lá. Quanto mais eu penso em mim pior eu fico”
“Acho que é assim com todo mundo, né”
“Talvez… Eu queria ter outras coisas pra pensar de vez em quando”
“Será que tu é meio egoísta?”, ele pergunta enquanto ela senta aos pés da cama, observando o céu para além da janela ao seu lado.
“Talvez”
“Porque tem muitas coisas que a gente pode pensar”
“Eu sei, mas o que eu sinto é vontade de entender por que eu sinto essas coisas difusas o tempo todo… Onde é que eu vou pra ser um pouco mais normal?”
“Ana, isso não existe”, responde o homem que não dorme mais, olhando a nos olhos.
Ana, tá na hora“, diz o casaco preto, de dentro do armário.
Ao mesmo tempo, Tadeu sai do banheiro assoviando algo enigmático e apaixonado.
Ana abre as portas do armário e seu casaco pula sobre si, ela sorri, pois seu calor a lembra dos dias de infância.
Guilherme mira o teto.
Tadeu aparece à porta e diz algo sem sentido para Guilherme.
“Eu estou no meio do nada, só existe o que eu permito, porque nada é mais que todo o resto”

Ana e Tadeu saem, deixando o reinado do rei insone.
No ônibus, a caminho do bairro boêmio:
“Ei”
“Hm”, responde Ana, deixando o transe, viajava por entre memórias de dias que nunca viveu, reconstituindo-se em pequenos fragmentos de vida que acharia menos pesados ou menos difíceis ou mais amáveis. A vida é um quebra cabeça infinito e o melhor que se faz é pintá-lo.

Chegam ao apartamento de Muriel e Tadeu abre os portões com suas chaves.
“Por que tu tem a chave dela?”
“Porque eu pedi”

Sobem as escadas até o quinto andar.
Ele abre a porta do apartamento 501 e se deixa entrar sem limpar os sapatos. Tira-os e atira a um canto indefinido, Ana o imita, porém os posiciona ao lado do sofá. Ele senta e chama por Muriel, que responde:
“Tô no banho!”
Ana, vem cá
Ela segue a instrução de seu casaco e vai até a janela. A noite já começa a cobrir a cidade cinzenta. Ela observa as primeiras estrelas, os engarrafamentos, as luzes se acendendo nos prédios, as vozes dos sonhos se aproximando de cada pessoa, para que recebem seu sono justo.

Hoje é uma noite diferente… Eu quero que tu saiba que nós temos que fazer algumas coisas. A primeira delas é esquecer a amizade do Tadeu, porque ela acaba hoje
“Sério?”
Sim. A segunda é pegar uma faca na cozinha, porque tu vai precisar dela
“Eu vou ter que matar o Tadeu?”
Não
“Eu vou ter que matar alguém?”
Não, mas tu precisa de uma faca

Ela vai até a cozinha e encontra uma faca longa e fina, de cabo de madeira.
Essa serve“, sussurra o casaco preto de Ana.
“Tá bem frio, né?”, é Muriel entrando na cozinha. Tadeu está roncando no sofá.
“Eu andaria sempre com esse casaco se eu pudesse”
“Eu andaria nas nuvens”
“Seria um passeio bem legal”
“Imagina a beleza de ver o mundo de lá de cima!”
“Só imagino…”
Ana fecha os olhos e seu casaco mostra algumas imagens de como a Terra é do alto. Águas cor de esmeralda, o lado de dentro das nuvens e a fonte dos sonhos: uma trama invisível de cores infinitamente brilhantes, o lado mais humano da humanidade e o canto onde cada ser pode ser o que é.

“Tu tá legal?”
“Sim”, responde Ana.
Quer ver mais coisas?
“Depois”

Tadeu acorda e vem até a cozinha.
“Muri, que que tem pra comer?”
“Qualquer coisa que estiver na geladeira”
Tadeu cata um bom pedaço de queijo e o come neandertalmente.
Também pega uma maçã e a guarda no bolso do casaco.

Ana observa o casaco roxo xadrez do amigo e sorri.

Pouco depois das oito e meia, a carona de Muriel está parada em frente ao apartamento e recebe os três em seu carro.
Agora são Ana, Tadeu, Muriel e Lorena, a caminho de um lugar muito longe.

Lorena dirige rápido e fala muito.
“Gente, sério, eu tô com muita fome. Não tinha comida em casa e eu tava toda atrapalhada tentando encontrar meu celular. Daí eu achei a porcaria e bem na hora meu pai me ligou pra encher o saco, querendo saber da minha vida, prestação de contas básica, né… É surreal a quantidade de encheção que ele coloca no meu saco”, ela ri da própria expressão e Muriel a acompanha. Tadeu dorme ao colo de Ana e sonha com aves vermelhas. Ana fecha os olhos e vislumbra os sonhos gloriosos de Tadeu.
Esse teu amigo é interessante

Chegam ao sítio dos amigos dos amigos de Muriel, que desce do carro uivando à Lua Cheia, que ilumina boa parte do sítio. Há um galpão velho pra um lado e uma casa de dois andares à frente deles. Quase uma dúzia de carros parada no estacionamento e vozes animadas vêm da casa. Alguém à janela acena para Muriel, que segue uivando.
Logo, todas uivam juntas.
Então algo acontece.
Muriel congela e os uivos cessam.
Ana vai até ela e, intrigada, tenta entender o que ela está passando.
Chama Tadeu, que também está congelado. Percebe então que todas estão inertes e só ela olha ao redor, confusa. A expressão de Muriel é de uma ferocidade selvagem. Tadeu está sorrindo e Lorena devora a maçã.

O casaco preto de Ana pula sobre Muriel. A Lua começa a minguar e Ana observa, encantada. Logo, ela some do céu e toda luz se esvai. Ana está sozinha no escuro absoluto e começa a sentir o peso de seus pesadelos sobre seus ombros. Um machado cortando seus dedos, uma matilha de cães gigantes a persegue numa montanha infinita, um corvo, um escorpião, um rastro de sangue que ela segue pra dentro de si.

Isso é parte do processo
“Que processo?”
A Lua cresce, iluminando lentamente o campo verde. O casaco preto de Ana está volta sobre seus ombros e o frio e o medo e o terror se foram.
“Não faz isso de novo”
Quando a Lua volta a seu estado original, Muriel desaba inerte sobre a grama prateada, as pessoas uivam mais um pouco e então percebem-na.
Tadeu corre até ela e vira sua barriga para cima, ele tenta falar com ela, mas nem seus gritos mais desesperados agitam qualquer molécula do corpo de Muriel.
Ana observa, confusa, mas nada surpresa.

“Que porra é essa!?”, grita ele, chorando e soluçando, desesperado. As pessoas da casa correm até o corpo da que não sorri mais.

Ana se aproxima dela.
Isso é só parte do processo
O casaco preto de Ana a aquece.

Alguns meses depois, no Outono, Ana chega à sua casa e encontra uma carta com a letra garranchada de Tadeu.
Querida amiga, como está?

Os últimos dias foram estranhos. Aqui faz muito frio e as enfermeiras não se preocupam com isso. Olho em volta. Estamos todos perdidos, entende? Nada do que posso encontrar aqui faz qualquer coisa valer a pena, é  só um rio de esperanças perdidas, mergulhando no oceano invisível do esquecimento…
Gostaria de poder te ver, ou pelo menos escutar tuas vozes… Eu gostaria de poder me despedir direito de ti ou algo assim, mas ainda não descobri como voltar no tempo (hah).

Ontem eu sonhei com a Muriel. Ela tava presa em algum lugar pior que esse, um lugar muito escuro e muito frio. Um escorpião caminhava por dentro dela

Ela guarda a carta junto das outras, num livro que era de Tadeu, Os Poemas da Hidra.
Depois que seu casaco fez aquilo com Muriel, outras coisas estranhas começaram a acontecer: mesmo sem ele, tinha lampejos de outras partes do mundo e via pessoas se transformando. Um dia viu seu irmão sonhando e sonhou os sonhos dele de construir um castelo de mármore, um castelo onde poderia guardar todo o sono do mundo para nunca mais sofrer uma vida de pesadelos. Chegou em casa e o encontrou em coma.
Quando o viu novamente, o viu chorando num labirinto e pensou que poderia salvá-lo, estendeu sua mão até ele, do alto, e o puxou para cima, por sobre nuvens leves de dias melhores. Ela o viu sorrir e afundar na clareza da nuvem, olhando-a nos olhos. Ele morreu poucas horas depois.
Ana andava sozinha.

Viu um formigueiro preso à nuca de um colega da faculdade e decidiu segui-lo.
As formigas roubavam as ideias dele e mordiam a língua dele quando ele tentava conversar com alguém.

Ana andava com seu casaco, que lhe sussurrava por que algumas são como são e por que Muriel tinha que morrer.
O grande sabor da vida está nas transformações, mesmo quando tudo parece irreal, o importante é que não seja como ontem e nem como amanhã. Eu fiz o que tu queria, eu te trouxe pra um mundo de inconstância e de brevidade, onde cada momento tu pode ver algo mais, algo além, e não precisa temer, porque tu sabe que eu te esquento
“Isso acaba?”
Tudo acaba

Sonhos de uma Flor

Os padrões da Vida estão dentro de nós, assim como se manifestam ao nosso redor, podemos nos conectar com essa essência divina para compreender tudo que se passa, para relembrar o poder da Paz Interior. Isso nos leva a pensar no formato do mundo, não no formato físico, mas o mental, espiritual. O curso de eventos que nos leva de um ponto a outro, as repetições em nossas vidas, os padrões de comportamento que nos submetem a desagradáveis momentos. Da semente vem a árvore.

Do pensamento vem a ação, a capacidade infinita de transformar quem somos em quem queremos ser, sem esforço. A ideia central é não se perder do fluxo. Sem esforço quer dizer realizar nossos trabalhos sem desviar do prumo mental e centrado, sem angústia, sem chicotes e sem sofrimento. A ideia superior é não desistir e não perder a Fé, pois Eu estou sempre aqui, trazendo o que é merecido e o que é necessário. O grande trabalho é compreender a Visão Divina, que nos presenteou a oportunidade de uma evolução.

Que alegria eu sinto por esta Infinita Bondade.
Somos incompletos frutos de uma vaidade, à procura das peças de nós mesmos que se perderam pelo caminho, borboleteando ao redor das luzes que pelo caminho nos atraem. Mesmo na mais negativa das mentes é evidente a existência de Luz, o ódio só existe porque ali não há amor, então é tudo uma questão de remediar feridas e preencher essa taça com o que temos a ofertar.

Só o amor constrói os frutos que alimentarão nossas netas. Só no amor está a salvação, só um caminho pode ser trilhado.

O Infinito no Coração

Do riso que nasce e da música cantada brota uma alegria que lava minh’alma. O que é isso que em nossos peitos se agita e engloba o mundo? O que eu posso fazer diante tão intensas sensações, tão maiores que eu e tão eternas quanto qualquer Céu? Que posso fazer contra um momento tão efêmero quanto esta nuvem…?

No meu coração caminha um andarilho, sem sal para temperar suas escolhas e sem óculos para ver do futuro, sem destino… sensações que se apegam e crescem de forma incompreensível. Essa ventura é de minha autoria ou é minha apenas para ver? O que, afinal, do que me compõe, é meu?

Não se pode calcular a emoção. Não se vê nem se mede e pouco se faz dela além de escrever e sentir. Sentir a brisa como uma risada de criança, sentir a chuva como a melancolia da nova solidão, sentir-se como um cachorro molhado. Sensações permeiam tudo.

Sensações que todo Coração pode ter, inclusive sem saber que tem, Corações que podem muito mais que apenas Bater, Bombear (e Repetir, Repetir, Repetir, Repetir, Repetir).

Repentinamente, sentir.

Nos raios do Sol estão escondidos os dias das nossas netas.
Rebeldes como a fumaça de um cigarro, se apagam na memória da Terra para permanecerem incógnitas.
É com intenso deleite que abrirão as portas para a Lua, numa viagem sem fim a qualquer, qualquer, qualquer lugar…

Como eu te Encontrei

E Lúcia vê o discreto sorriso melancólico de Renata
que está sentada na escada do terceiro andar do prédio B da faculdade de Letras
ambas sabem que o amor é perigoso e amar é mais ainda
ambas carregam fundo no peito a dor de ver num romance a força do rancor
do remorso sentem medo e apenas se olham,
quando Renata vê o profundo olhar misterioso de Lúcia

na noite seguinte
Renata encontra a alegre gargalhada de Lúcia numa biblioteca de livros perdidos
Lúcia encontra os passos largos e delicados de Renata num corredor pouco agitado

quando num café se sentam para conversar e decifrar o que sentem,
percebem também que o Tempo se desfaz e resta-lhes somente uma sensação dócil e serena de amor
“que é o amor?” “quem somos nós?” “por que é tão caro esse café?”

nos dias seguintes, muito discutem e muito riem
com a música dos poetas descobrem os mistérios do mundo
com o choro das amigas veem que não querem mais a solidão
e a tristeza cada vez mais se afasta

e Renata Amaria Lúcia
tanto quanto Lúcia Amará Renata
numa bela noite de Lua Minguante

e toda estória tem final feliz, porque se acabou é melhor e se não acabou melhor ainda
e todo rastro de amor pode ser reencontrado

Pequenos Aprendizados Sobre a Verdade

Eis que sai uma mulher em busca da verdade, caminhando em direção à Lua. Na floresta misteriosa que habita, inúmeros curiosos contam mentiras, trocando suas almas por um punhado de frases de efeito.
A nossa aventureira esgotou todas as fontes que se lhe apresentavam, então, com a bênção dos antepassados, se despede daquele povoado que conhece os segredos do vento.

Após meio dia de viagem em meio à floresta que me sussurrou esta estória, ela se vê com pouco alimento e pensa em retornar, abandonando sua missão. Eis que se apresenta a ela um sapo.
“Reconheça que tu não és a carne.
És uma fagulha da força infinita do Superior”.

O sapo foge, antes que ela possa indagar o significado desse conselho.
Em vez de retornar, ela entra no lago sereno de onde falou o sapo e examina o que ele disse.
Ela percebe que se todo ser da mata possui alimento, ela também pode se manter.
Ela segue viagem, comendo insetos, peixes e outras coisas que o vento traz.

No terceiro dia, ela encontra um filhote de lobo que demonstra estar passando por uma situação difícil e a aventureira lhe dá um tanto de água e comida. Ela pensa até que o vê sorrir. Precisando partir, ela se despede do filhote, que come e bebe com plena gratidão a essa nova amiga.

No sexto dia, ela chega a uma aldeia, um tanto cansada das noites mal dormidas e da alimentação diferente pela qual teve de passar.
Um senhor de poucas palavras a acolhe e lhe dá de comer e beber.
Ela fica alguns dias descansando e, para merecer algum sustento, teve de trabalhar na caça, dada sua experiência dos dias passados. Certo dia, o grupo de caça se vê cercado por uma enorme matilha de lobos. Vem lentamente se aproximando a ideia de Morte, até que uma loba diz:
“Essa humana é uma de nós,
Do meio da mata ela vem,
No equilíbrio ela se mantém.
Não há maldade em sua voz”.

A matilha lentamente se afasta dos humanos.
Os ‘caçadores’ agradecem a bondade da ‘caça’ e se despede.
Ao chegarem à aldeia, festejam em homenagem à aventureira a quem devem suas vidas, num festim que ajunta todo o povo.

Na manhã seguinte, ela parte antes do Sol levantar.

No Décimo dia ela chega a uma cidade: os carros substituem os lobos, há postes e prédios mais altos que a Princesa da Floresta. Confusa e incerta, se arrepende da jornada, contudo, não desiste.
Passa fome, pois não há equilíbrio nesse mundo, passa frio, pois à noite reina o gélido concreto.

No Décimo Terceiro dia desde que partiu de sua vila, uma humana de roupas caras vê nela um tanto de si e fica comovida.
Pergunta se a Aventureira quer estudar e ela responde, “O que é isso?”.
“Isso é a chave para crescer nesse mundo”.
Há três noites sem dormir, ela crê que esse mundo é tudo que há.
Há três dias sem comer, ela vê nesse mundo tudo que há.

No Milésimo dia desde que saiu de sua vila, a aventureira recebe um papel que diz que ela sabe algumas coisas.

Ela pergunta à sua Anfitriã se já cresceu o suficiente nesse mundo.
“Não, tu recém começou”.
A aventureira fica confusa, pois de tudo que dizem que ela sabe, ela só um pouco.
De tudo que dizem que ela aprendeu, não sabe o que usar para sobreviver. A anfitriã vem lhe responder
“Para crescer, tu precisa sempre saber mais que os outros”

A aventureira decide examinar o que lhe foi dito, porém não encontra silêncio e se afasta das paredes e das luzes artificiais.

Ela então se vê em frente a uma árvore que parece lhe chamar e prossegue, sem saber porquê.

A aventureira encontra um rio e percebe que não escuta mais a cidade. Percebe que está cercada de uma vida tão antiga quanto o céu. Percebe que o tempo todo a verdade que ela buscava já estava com ela e seu coração conhece então a Paz. E na verdade a verdade é mais simples que os livros do governo fazem parecer.
A verdade honesta e sincera fala através dos gestos invisíveis da Natureza: a luz, o vento, as raízes das ervas que não gritam de dor, as profundezas do mar que pinta o céu de tranquilidade.
A verdade é viva e selvagem.
A verdade é uma chave mestra e um cofre sem porta.

A Primeira Mulher que Pousou na Terra

Conforme a nave de Ana avança em direção àquela pálida estrela azul, os astros que discretamente guiam sua jornada parecem sussurrar segredos milenares. Ela observa pela janela da cabine um cintilar diferente no Cinturão de Órion, um brilho que sugere um movimento perigoso: o disparo daquela flecha com o poder uma estrela. Ana também pensa que pode estar há tempo demais sem contato humano e sem contato com a natureza e que essas são as razões de ver coisas tão diferentes na abóbada Superior. A pequena nave é pouco maior que um beliche e o diâmetro de seus propulsores externos é pouco maior que o de uma roda de caminhão.

A nave contém a cabine, uma cama e um banheiro. Ana vem se alimentando de um extrato de proteínas e vitaminas que, nessa situação de pouco esforço físico, lhe dá energia suficiente para o dia-a-dia a bordo de sua nave. A cama possui uma leve atração gravitacional em seu estrado através de um sistema de chumbo e radônio, permitindo que ela durma como em seu planeta natal (após algumas expedições, os cosmonautas relataram que a falta de sono normal é a principal causa de loucura).

E a última coisa que vocês precisam saber é que ela está carregando sementes para um planeta com vida em potencial localizado a milhões de quilômetros de distância de Airumã.

Faz sete anos que Ana não tem nada novo para pensar, pois se afastou demais das antenas-satélite de Airumã e perdeu todo contato com suas irmãs e irmãos, então está mais uma vez refletindo sobre a última conversa com sua mãe:
“E eles não têm ninguém melhor pra mandar pra lá?”, diz Rosângela, irritada.
“De novo, isso, mãe? Eu quero ir lá ver como é…”
“Não pode ser diferente daqui, né”, sra. Rosângela está afiando um cutelo e uma faísca quase lhe come um olho.
“A senhora tá bem?”
“Sim”
“Mãe, eu acho que a senhora devia ficar feliz de me ver merecer uma viagem dessas. Ninguém nunca foi lá antes”
“Exatamente, minha filha”, sra. Rosângela degola uma galinha.
“Por que a senhora nunca tá feliz comigo?”
Sra. Rosângela degola outra galinha e atira as cabeças para o cachorro. “Chama o teu pai pra terminar isso aqui, eu preciso tomar um banho”

A galinha assada do pai de Ana teve pela primeira vez um gosto amargo.

Agora está na hora de dormir, mas sem Sol nem Lua para coordenar as funções biológicas e químicas do corpo, Ana dorme poucas horas a cada 10 horas e acorda com a sensação de que nunca dormiu. ‘Só a cama gravitacional não é o suficiente’, consta na seção QUALIDADE DA VIAGEM de seu relatório.

Falta pouco para que ela possa aterrissar nessa terra sem grama e começar sua missão de semeá-la. Ela redireciona sua nave para o ponto de aterrissagem recomendado: o segundo maior continente do pálido ponto azul. Ela está muito nervosa, pois não sabe o que vem encontrar, nem como será o retorno, nem se sua vida será como antes.

Quando pressiona o botão roxo quadrado do painel, percebe que algo está errado. Seu olhar franzido encara o botão, enquanto ela tenta relembrar o procedimento de aterrissagem. Ela tem certeza de que deve apertar o botão roxo para liberar as placas de desaceleração e tenta novamente. É para o botão roxo começar a piscar, mas ele se mantém iluminado. O Planeta Azul está se aproximando dela e ela dele. Ela consegue distinguir o branco das nuvens do azul do mar do amarelo da areia. Isso não é bom, pois ela continua acelerando.

Segura o manche com firmeza e tenta ingressar com suavidade na nova atmosfera e coloca o cinto de segurança pela primeira vez em toda a viagem. A turbulência balança e agita a nave com tanta força que as placas internas de titânio começam a se soltar fazendo um barulho muito alto e estridente. Ana escuta sua Morte se apresentando lentamente… Ana tenta calcular a temperatura externa da nave baseado na velocidade, na altura e nas aulas com o Professor Guedes sobre o Planeta Azul.

Ana trava o manche e procura no painel alguma opção. Ainda não pode ejetar pois não penetrou na atmosfera do planeta. Não pode desacelerar pois é a gravidade que a move nesse momento. Decide desacoplar as turbinas para diminuir a destruição do impacto e aumentar suas chances de não morrer incinerada. O coração de Ana é o barulho mais alto dentro da nave, cada vez mais agitado. Ela está respirando lentamente, como instruída (inspira pelo nariz, segura por 03 segundos e solta pela boca), mas o nervosismo se mantém.

Ana escuta algo metálico arranhando o exterior da nave e pensa que está sendo atacada por uma barata de Cassiopeia e quando examina o exterior vê uma placa se desprendendo da camada externa e se perdendo no imenso espaço sideral. A nave começa a perder energia rapidamente. Ana pressiona o botão redondo e preto do painel, então puxa a alavanca vermelha e as turbinas se desacoplam e ela começa a chorar. A nave continua se despedaçando conforme ela adentra no planeta novo, a nave diminuindo e cada pedacinho sumindo em meio às estrelas que guarnecem a cosmonauta mais corajosa de Airumã. Ana se agarra à caixa com suas sementes e plantas e tenta se concentrar em coisas boas. Ana se segura na caixa com suas sementes e plantas e e procura coisas boas para pensar. Ana está com a caixa de plantas e sementes relembrando o primeiro voo através do cosmos, Ana relembra a noite em que, ainda criança, fugiu de três lobos, Ana observa a beleza do Planeta Azul, repleto de água e de terra e de luz, e crê que está falhando em sua missão. Ana sorri e limpa as lágrimas e pensa que observar essa beleza única por alguns instantes é o propósito de toda essa viagem, pois em Airumã a escuridão reina. Em Airumã, após bilhões de séculos de evolução, a Luz Guia começou a se apagar e em algumas décadas sua implosão dizimará todo o sistema ao seu redor. Todos de lá sabem que é inevitável e que não é a primeira vez que isso acontece, mas o fim absoluto não é algo facilmente aceitável.

Toda a camada externa da nave já se foi e resta agora apenas um fino revestimento de aço e borracha, que está sendo perfurado nas laterais. Ana finalmente adentra a atmosfera do planeta, mas a nave não tem energia suficiente para ejetá-la. Todas as luzes internas se apagaram, resplandecendo dentro da nave a pureza da luz azul dos oceanos que ela crê que estão prestes a acolhê-la.

Um braço cósmico de luz azul e longas unhas se manifesta duma nuvem e segura Ana. Ela pensa que está morta ou alucinando por desidratação e subnutrição, mas sente que está percebendo as coisas como antes, sente a vida pulsando dentro de si e elimina aquela hipótese. O braço cósmico de luz azul e longas unhas, cujo corpo permanece escondido por trás daquela nuvem, segura Ana e somente Ana, deixando a nave atravessá-lO, deixando as roupas cair, deixando a caixa de esperança se perder em junto de todo aquele metal.

Ana observa o braço e reflete. Sente um pulsar firme e sereno. Está difícil para ela escolher o que falar, uma vez que sente-se extremamente bem, como se nada pudesse abalá-la, como se não precisasse mais se preocupar e mergulha um tanto nessa sensação. O braço a mantém nos céus e ela, deitada sobre aquela morna palma sem traços e sem impressões digitais, diz:
“Quem é a Senhora?”
“Eu sou alguém que te ama muito”, diz a voz, diretamente na consciência de Ana.
Essa resposta é tão perfeita para a compreensão de Ana que ela se cala e continua a observar o planeta sob ela, sem se perguntar nada mais, apenas apreciando o que vê e o que sente. A mão lentamente se fecha com Ana dentro e ela instintivamente se deita, então se vira, e a mão fechando, então recolhe os joelhos, a mão fechando, Ana abraça seus joelhos e fecha os olhos, mas continua vendo a mão de luz azul que se fecha cobrindo-a.

Ana de Airumã sente uma pulsação diferente em seu peito.

Lucas e Helena observam uma estrela no céu.
“Quando que ela apareceu?”
“Faz pouco tempo, uma semanas…”
“Ela tá se mexendo, olha!”
“Não tá se mexendo, Lucas”
Lucas espreme os olhos e bloqueia com a mão esquerda um tanto da luz do Sol.
“É mesmo…”
“Lucas”
“Hm?”
“Eu tô grávida”
Lucas olha para ela surpreso e feliz. Ela responde com um sorriso. Ele coloca a mão sobre o ventre da mulher de olhos amarelos. Ela pousa sua mão sobre a dele.
“É uma guria”
“Sério?”, ela começa a chorar.
“Sério…”, ele a abraça e o vento agita alguma areia em torno deles. Ele cobre os olhos dela.
“Que nome tu acha que é bom?”
“Vamos ver com a minha mãe…”
“Tem certeza?”
“Tenho”

Helena e Lucas sobem na moto e atravessam o deserto lentamente. Imaginam o começo, quando ensinarão ela a sorrir e a gargalhar, e o meio, quando a ensinarão como sobreviver, e o final, quando a ensinarão a se despedir do passado.

“Tu acha que a gente precisa se casar, Helena?”
“Acho que não agora…”
“Que bom”

A moto some na barra do horizonte, em algum lugar entre a areia dourada e o céu anil.
Lucas estaciona sob um poste de luz azul na movimentada rua F, onde mora desde sempre. É a primeira rua do terceiro anexo da Cidadela, então ela não é nem muito nova nem muito velha. Todas as casas obedecem ao padrão de 02 andares, 02 banheiros, 02 salas, 01 cozinha, 03 quartos e 01 depósito. No centro e nas periferias há alguns prédios que sustentam a Placa, locais onde a pressão da terra parece afetar os moradores…

A maioria das pessoas está trabalhando ou estudando nesse momento, então é um momento de bastante silêncio. Só o que é escutado são as Engrenagens Rotacionais.

Lucas confere se a corrente está bem presa e se dirige à casa nº102.
Helena aguarda Lucas em frente à porta e eles entram juntos.
“Mãe?”, ele pergunta para a casa.
Tiram os sapatos, entram, tiram os casacos e os penduram.
“Mãe!?”, ele pergunta novamente.
Passos lentos e pesados vem vindo do corredor para a sala, ambos respiram aliviados.
“Tô aqui”
“Por que que a senhora não responde?”, diz ele, abraçando-a.
“Oi, sogrinha”, então Helena a beija nas bochechas e percebe que ela encara seus olhos amarelos.
“Vocês têm que se livrar dela. Esse bebê não é desse mundo”

Das coisas horríveis que foram boas

Um sonho vale tanto quanto a energia que tu deposita na realização dele.

Maurício, aos seus dezesseis anos de vida, sonha em ser feliz no futuro não muito distante. O presente é entediante e deprimente: aula da segunda até o glorioso sábado, desde que o programa Mais Educação, Mais Evolução do governo entrou em vigor.

A aula acaba e, de segunda a sábado, Maurício pega o ônibus 237 e desce na última parada. Esta fica num bairro quase totalmente residencial, no fim da cidade de Santa Marta, a 15km do Centro. Até ano passado, Maurício morava a mais de 1000km de Santa Marta, numa cidade meio-grande chamada Boa Passagem.

Maurício tem dezesseis anos, um irmão gêmeo internado no hospital, uma mãe (solteira) professora da rede pública e pouco ânimo de viver, por enquanto. Maurício tem pele negra, olhos castanho-claros, um metro e sessenta, sessenta e seis quilogramas, Lua em Virgem, raiva do que o Destino fez com ele e medo do que ainda pode fazer.

Quando tinha nove anos, Maurício brincava com Lucas, seu irmão, na rua de casa. Corriam pra lá e pra cá, gritavam isso e aquilo, riam e pulavam.

Lucas, aposto que tu não me pega!”

Maurício atravessa a rua e Lucas vai atrás.

Maurício entra correndo em casa, chorando, sujo de sangue, de ranho, de medo e confusão.

Mããããe…”

Lúcia vem do escritório para a sala, com uma caneta vermelha quase sem tinta em mãos.

Que foi, filho?!”

Sente um forte aperto no coração quando vê seu filho ensanguentado e pula até ele, para acalmá-lo, beijá-lo, amá-lo.

O que foi, filho? Como tu te machucou?”

O Lucas, mãe…” – e chorava mais e mais.

Lúcia sente um pedaço de si desfazer.

No hospital, não conseguem consertar o pulmão esquerdo de Lucas.

No hospital, a morte trancou-se nos olhos de Lúcia.

No hospital, aos nove anos, Maurício descobriu o que é Dor.

Desde este incidente, Lucas mora em hospitais, onde máquinas respiram e comem por ele; Maurício mora na Solidão, na Culpa e na autodestruição emocional. Lúcia carrega a Dor numa pequena caixa de Tristeza.

Quando completaram doze anos, o corpo de Lucas estava são o suficiente para que pudessem se mudar e foram para Boa Passagem, onde os hospitais seriam melhores, as escolas também e a vida ainda mais.

Em Boa Passagem, Maurício morava em frente ao colégio e ao lado do Hospital. Toda quarta e quinta, visitava seu irmão para ler, na esperança de que ele acordasse do coma com alguma crônica de Veríssimo ou de Millôr. Ele nunca acordava, mas na cabeça de Maurício, era porque estava sonhando e rindo por dentro.

Em Boa passagem, Lúcia deu aula para as 7ª e 8ª séries, ou seja, foi professora de Português de Maurício por dois dos quatro anos que ficaram lá. Como o programa Fidelidade, Igualdade & Transparência do governo já havia entrado em vigor, quem elaborava as provas da turma de Maurício era outra professora de Português: Sônia. Sônia e Lúcia são amigas-irmãs desde sempre.

Lúcia não procurava um homem para sua vida, mas muitos homens a procuravam: sua inteligência ímpar e sua boa vontade e seu desejo de curar tudo e todos atraíram muitos que sentiam falta de uma mãe ou de uma avó. Seu corpo magro, seios fartos e sorriso simétrico atraítam muitos que sentiam falta de um corpo quente na cama.

Lúcia visita Lucas todas as noites desde o acidente.

Lúcia, em Boa Passagem, desapegou um tanto da tristeza, graças aos esforços de Sônia, que levaram meses para fazer algum efeito…

Sônia ganhou a luta contra dois cânceres: um no estômago e outro no pulmão. Nunca fumou.

Em um restaurante, num dia nove de maio, Sônia tomava de seu chá de limão enquanto Lúcia contava sete reais em moedas, para se livrar do barulho que pareciam correntes.

Que tu tá fazendo? Pode deixar que eu pago” – Ah!, Sônia é negra, daquele tom de quem trabalhou no Sol por algumas décadas, tem um metro e oitenta, noventa quilogramas, cabelo curto e parece uma águia.

Não, não, eu quero me livrar dessas moedas”

Que bom, parecia umas correntes”

Hoje foi a primeira vez que me incomodou” – diz Lúcia, rindo.

Posso te fazer uma pergunta?”

Claro, irmãzinha”

Sônia fita Lúcia, que a olha de volta.

Como tu tá?”

Lúcia percebe que as pessoas evitam perguntar esse tipo de coisa quando se está numa situação delicada como a dela.

Eu tô…” – Lúcia não pensa em si há alguns anos e procura as palavras certas para as emoções em que não prestava atenção há tanto tempo – “estranha”.

Uma lágrima pinta o rosto de Lúcia.

É muito difícil ver um pedaço de ti morrer”

Mas ele não tá morto”

Mas é como se tivesse…”

Não é, não!” – o grito de Sônia assusta um garçom, que derrama uma bandeja de sucos e refrigerantes num figurante sem falas, e atrai a desatenção de algumas mesas.

Ele tá vivo, Lúcia, ele tem uma consciência lá dentro ainda, a mente dele ainda opera, isso que é estar vivo, é pelo menos o começo de viver”

Mas eu não sei se ele vai acordar e todo dia eu acordo e não sei se ele vai viver mais um dia, se ele tá bem. Imagina se fosse o teu filho!” – o choro começa a tomar força.

Isso tá acontecendo contigo porque tu tem força pra segurar, porque tu não vai perder a fé na cura dele”

Que bobagem, Sônia…” – Lúcia enxuga algas lágrimas.

Desde que eu te conheço tu tem esse olhar pesado, angustiado. Tu precisa aceitar isso, por mais difícil e desafiador que seja, tu tem que ver como um desafio pra melhorar, tu precisa tornar/”

Cala a boca, Sônia! Tu não tem a menor ideia do que eu tô passando!”

Lúcia, querida” – Sônia fala mais suavemente, não de uma suavidade irônica, mas uma de amizade, de puro amor – “Eu já fui o Lucas. Eu já fui uma mente sem corpo quase esquecida num quarto sujo de hospital e sabe o pior? A gente sente tudo que acontece em volta”

Sônia ficou em coma após sua última sessão de quimioterapia.

Era uma sessão normal, até ela começar a sentir uma tontura muito forte e dores pelo corpo. Adormeceu por três meses e meio.

Quando acordou, vendeu sua casa, comprou um sítio e reduziu suas turmas no colégio de sete para quatro. Começou a viajar regularmente, já conhece cada país da América do Sul e alguns da África. No fim do ano irá para o Egito com Sônia e Maurício.

Lúcia, acuada e amada, respira fundo.

Me diz o que fazer… Eu preciso de ajuda”

Sônia segura a mão de sua irmã.

Vai dar tudo certo”

Saíram de Boa Passagem porque o pulmão direito de Lucas estava bom o suficiente para respirar sozinho e recomendaram uma cidade com ar mais limpo e com as ruas menos barulhentas. Então começa a estória de Maurício em Santa Marta.

Quando Maurício chega em casa naquela quarta-feira dia sete, duas horas após subir no ônibus, encontrou Sônia sentada no banco verde escuro em frente à casinha azul clara da Rua das Flores. É um dia ensolarado de poucas nuvens, a Natureza está de bom humor.

Bom dia”

Bom dia…” – Maurício a cumprimenta com tanta neutralidade emocional que parece que também está em coma.

Fala direito, guri! Parece que é tu que tá em coma!”

Maurício sente sua raiva quebrando um pescoço.

Bom dia” – Maurício se aproxima dela, lhe aperta a mão e beija a bochecha.

Bom dia!” – ela sorri sem escárnio, só com amor – “Tua mãe tá em casa?”

Não sei, talvez…”

Maurício pega as malas enormes e surradas de Sônia e as carrega para dentro.

Lúcia não está.

Sônia está sentada na sala, onde há apenas uma foto da família: aniversário de sete anos dos guris, o pai à direita, a mãe à esquerda e os guris no centro, cortando juntos um pedaço de bolo de chocolate.

Quantos anos vocês tinham nessa foto?”

A Dor sente Maurício respirar pesado.

Sete” – ele está sentado na sala, olhando o hospital de Lucas pela janela, de lado para a convidada.

Sônia sabe algumas coisas sobre Dor e a vê sobre os ombros de Maurício.

Que tu tem, guri?”

Nada…” – ‘Ela não vai entender’, pensa Maurício, com aquela arrogância adolescente.

Nada é nada” – ‘Ele não vai entender’.

Como assim?”

Qualquer coisa é alguma coisa, então só o que não é pode ser nada”

E o que que não é?”

Nada”

Maurício entra nesse labirinto filosófico e caminha um tanto.

Que que tu tem, guri?”

Nada!” – Maurício cuspe, junto dessa palavra, uma confissão e um sentimento enterrado de remorso, cuspe a sensação de que sua vida é vazia e sempre será, cuspe Culpa.

Me explica isso direito…”

Eu tenho Nada. Ninguém pra conversar porque a mãe trabalha tão longe que chega quando eu já tô dormindo. E quando ela tá em casa parece uma estranha, a gente não tem nada em comum”

Tem algumas coisas erradas nesse teu pensamento, mas depois a gente fala nisso… E os teus amigos?”

Que amigos…”

Não vem com essa, guri, nessa idade ninguém é sozinho”

Eu sou”

Tu não conversa com ninguém no colégio?”

Converso mas ninguém realmente se importa. Elas só querem falar e que tu beija os pés delas…”

É assim que tu vê as pessoas?”

É assim que elas são…”

Eu acho que é assim que tu é. Que tu tem tanta pena de ti que prefere/”

Que que tu sabe da minha vida!?” – a Raiva bate um pé no chão.

Eu sei que tu é um gurizinho” – declara Sônia, se levantando – “que tem comida, cama e teto sem mexer um dedo, que tem educação e uma mãe que te ama, que tem tudo pra fazer as coisas darem certo” – ela veio caminhando até estar frente a ele, que a olha com algum medo “mas fica nesse abismo porque não vê o quanto tu tem a ganhar se der um passinho pra frente!!”

A Raiva fugiu. O Medo foi dormir. A Angústia tomou calmantes.

Maurício começa a chorar e seu nariz escorre.

Me diz o que fazer, mãe!” – ele a abraça com força, com sete anos de idade, com amor, com uma torrente de lágrimas que rompeu a represa da auto piedade e da indiferença forçada.

Lúcia chega às onze e meia: abre a porta com calma, respira fundo e caminha silenciosamente. Quando vê Sônia e Maurício jogando truco à mesa de centro da sala, sua surpresa dura alguns segundos, até a alegria tomar conta, como um banho após um dia inteiro de corrida lomba acima.

Esse teu guri parece burro mas até que sabe das coisas…”

Maurício estava de costas para a porta. Se vira surpreso e corre para dentro do abraço da mãe… Entra uma lágrima ou três, diz:

“Desculpa, mãe… Desculpa por matar o Lucas, por não te fazer bem, por tudo que eu fiz de errado…”

“Tá tudo bem, filho… Vai dar tudo certo”

DIA 8, QUINTA-FEIRA

Maurício acorda às quatro e meia, pensa por quinze minutos, se veste em dez.

Passa vinte no banheiro.

Arruma a mesa para si, sua mãe e a convidada, que só chegará à mesa às sete, come, escova os dentes e sai exatamente às cinco e meia.

Às sete está descendo do ônibus em frente ao colégio, onde, pela primeira vez desde que chegou a Santa Marta:

    • Conversa com a guria de olhos azuis, um metro e setenta, setenta e sete quilogramas e cabelo preto curto;

    • Anota algo que a professora explica;

    • Passa o recreio acompanhado (pela guria de olhos azuis: Carolina) e

    • Sorri.

Onde tu mora?”

Beeeem longe” – caminham em direção à parada Carolina e Maurício, que descobriram ter mais que um colégio em comum: ambos preferem água com gás, inventam mundos que não existem, sabem que dor é horrível e ambos querem melhorar. Carolina tem muito a ensinar a Maurício, ele não se importa em aprender com ela e eles não sabem, mas não é a primeira vez que se conhecem.

Isso não é onde

Eu moro lá no Bom Princípio”

Ah, eu gosto de lá! Minha vó mora lá”

Eu tô começando a gostar. É bem quieto de noite”

Bá, que inveja. Eu tenho que aturar carro de noite e ônibus de manhã cedo, mal durmo…”

Maurício já viu seu irmão gêmeo, ou melhor, Maurício já se viu morrer, então não tem medo.

Tu não quer ir lá conhecer o meu irmão? Depois dorme na tua avó”

Carolina não é tão superficial quanto esta narração faz parecer e este convite, além de surpreendê-la, soou cheio de amor, autoconfiança e sinceridade.

No Hospital, Carolina ficou levemente chocada.

No quarto de Lucas, pesadamente assustada.

“Ele tá melhorando. Uns anos atrás ele nem conseguia respirar sozinho”

Ah… Tá…”

Em casa, Sônia diverte Carolina com histórias que quase lhe tiraram a fé e a assusta com algumas quase lhe tiraram a vida ou a sanidade.

E tu faz o quê?” – Carolina.

Às vezes eu sou professora de História, às vezes sou padeira e às vezes sou enxadrista”

E tu ganha dinheiro jogando xadrez?”

Sim, quando fico no pódio dos campeonatos”

Ahh… e tu joga há quanto tempo?” – Carolina repórter quer saber tudo da vida das pessoas.

Acho que jogo desde os dez anos”

Às dez e meia, Carolina ainda está na sala da casa azul claro, joga truco com Maurício.

A Lua Cheia ilumina parte da sala e, para preservar a beleza da mesma, Sônia acendeu velas.

Entra Lúcia.

“Ué, faltou luz?”

“Boa noite, mãe!”

“É pra ficar mais bonito, irmãzinha”

“Oi, tia, Carol, prazer!”

“É, ficou bom mesmo com essa baita Luona lá fora!”

Jantam pizza, que Carolina e Maurício fizeram com mais amor que técnica gastronômica.

Não está ruim, nem bom.

“De onde vocês se conhecem?” – pergunta Lúcia para seu filho.

“Do colégio. E vocês duas?”

“De outro colégio” – responde Sônia, sorrindo.

Mais tarde, Carolina e Maurício perdem a virgindade.

SEXTA-FEIRA, DIA NOVE.

Carolina convenceu Maurício a ficar em casa.

Passam a manhã assistindo desenhos no SBT, almoçam a comida maravilhosa de Sônia.

Onde tu aprendeu a cozinhar desse jeito?” – Carolina quase tem dó de devorar essa comida.

Sete anos de restaurante, bem”

Eu tô sentindo um pneuzinho surgir…”

Mais um…?” – brinca maldosamente Maurício.

Besta!” – Carolina joga massa na cara dele, mas ele finge que nada aconteceu e continua comendo.

A massa com molho vermelho-escuro escorre para dentro de seu prato e ele a come.

Que nojo, Maurício!”

Se comporta, guri! Deixa de ser criança!”

Desculpa, desculpa”

Foi um pequeno vacilo, mas o novo Maurício não se preocupa.

Após alguns episódios de Um Maluco no Pedaço, os três, alimentados de comida e de bom humor, vão ao hospital, ler Veríssimo para Lucas.

No Hospital, há uma nova faxineira limpando o saguão.

“Oi, tu é nova aqui?” – pergunta Maurício.

“Sim, por quê?”

“Pra saber… A gente vai se ver muito ainda…”

“Ou não…” – ela sorri.

Maurício sorri.

Sobem até o décimo andar. Entram na sala 1011.

Maurício senta próximo à cabeceira, Sônia ao lado da porta e Carolina fica em pé, ao lado da janela.

Maurício começa a ler Pôquer Interminável em voz alta.

… …

Ninguém sai! Ninguém sai!!” – Maurício dá vida à palavra escrita melhor que qualquer aluna do 2º ano do Ensino Médio do Colégio São João.

“Ele se mexeu”.

Carolina fala e depois percebe o que falou.

A mão direita de Lucas levanta-se lentamente.

Maurício observa incrédulo.

Sônia estava gravando a leitura formidável de Maurício.

A mão sobe lentamente até a testa de Lucas.

“Que coceira… mais chata…”

Lucas abre os olhos.

Naquela tarde, Lúcia largou a turma no meio da prova e pegou um táxi até o hospital.

Abraça Lucas por todas as vezes que não o abraçou, beija-o por todos os dias que chorou naquele hospital e sorri, feliz, feliz como ela merece ser.

“Quantos anos?”

“Sete anos… e nove meses”

“Bá… Nem parece”

“É, filho, calma, descansa”

A Dra. Gonçalves chama Lúcia e Sônia, que ela julga serem casadas, para falar sobre os procedimentos futuros.

“Quem é essa?”

“Carol, prazer, teu irmão fala muito de ti”

“Bá, cara…” – Maurício não para de chorar desde que tudo isso começou.

“Te acalma, mano, agora tá tudo bem”

“Bá, cara… Eu sei, eu sei… É que… Bá…” – a alegria se faz presente em cada ínfimo gesto.

“Ele quer dizer que tá muito feliz de te reencontrar”

“É, eu também”

“Mas… Como foi essa soneca toda?” – Maurício e Lucas e Carol riem.

“… Foi boa”